
Com a intenção de evitar condutas que visem tumultuar a disputa, os editais de licitação preveem a aplicação de penalidade por não manutenção da proposta, mesmo que tenham sido oriundas de erro de digitação, sendo desclassificadas assim que identificadas e em muitos casos, penalizadas. No entanto, tal conduta deve ser observada caso a caso, para que se evite a aplicação generalizada e desmedida de penalidades gravosas.
Qual penalidade pode ser aplicada?
A Lei n. 10.520, que disciplina o Pregão, estabelece, em seu artigo 7º, as hipóteses que acarretariam impedimento de licitar e contratar com a União, Estados, Distrito Federal e Municípios, vejamos:
“Art. 7º - Quem, convocado dentro do prazo de validade da sua proposta, não celebrar o contrato, deixar de entregar ou apresentar documentação falsa exigida para o certame, ensejar o retardamento da execução de seu objeto, não mantiver a proposta, falhar ou fraudar na execução do contrato, comportar-se de modo inidôneo ou cometer fraude fiscal, ficará impedido de licitar e contratar com a União, Estados, Distrito Federal ou Municípios e, será descredenciado no Sicaf, ou nos sistemas de cadastramento de fornecedores a que se refere o inciso XIV do art. 4º desta Lei, pelo prazo de até 5 (cinco) anos, sem prejuízo das multas previstas em edital e no contrato e das demais cominações legais.”
Sabe-se que a empresa licitante, ao apresentar propostas e lances, se responsabiliza formalmente pelas transações efetuadas em seu nome, assumindo-as como verdadeiras, conforme previsto no artigo 13, inciso III, do Decreto n. 5.450/05 que trouxe a regulamentação do Pregão Eletrônico. No entanto, é imprescindível que o Órgão verifique as particularidades do caso, onde o licitante solicita sua desclassificação por erro de digitação no cadastramento do seu lance. Ao mesmo tempo em que a simples alegação do licitante de que tenha havido erro de digitação não é suficiente para afastar-lhe a aplicação de penalidades, há casos em que o equívoco é tão evidente que os preços dos produtos estão totalmente em disparate com os valores de mercado, sendo impossível sua manutenção.
O que fazer ao perceber o erro de digitação?
A empresa licitante não pode, todavia, deixar de comunicar e requerer a desistência imediatamente após a verificação do equívoco lançado, a fim de que isso não venha a atrapalhar o certame e possa configurar prejuízo à Administração Pública, que servirá como motivo para, inclusive, agravar a penalidade. É necessário que haja efetivos prejuízos a Administração Pública, esse é um dos requisitos que se considera fundamental. Nesse sentido, é a decisão do Supremo Tribunal Federal:
RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA. LICITAÇÃO. PREGÃO. ATESTADO DE CAPACIDADE TÉCNICA. APLICAÇÃO DE PENALIDADE À LICITANTE. RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA PROVIDO. ORDEM CONCEDIDA. 1. Ausentes o prejuízo para a Administração Pública e a demonstração de dolo ou má-fé por parte da licitante, não há subsunção do fato ao art. 7º da Lei nº 10.520/02. 2. Recurso ordinário em mandado de segurança provido para, reformando a decisão do e. STJ, conceder a ordem. (RMS 31972, Relator(a): Min. DIAS TOFFOLI, Primeira Turma, julgado em 03/12/2013, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe-029 DIVULG 11-02-2014 PUBLIC 12-02-2014)
Faz sentido punir erro sem dolo ou prejuízo?
Ora, a questão que se coloca em debate é a seguinte: se a situação ocasionada por erro de digitação foi informada pela própria empresa licitante, não causou prejuízos a Administração, não foi observado dolo ou má-fé, bem como não é possível identificar quais vantagens a empresa teria apresentando proposta de valor inexequível, qual o sentido em penalizar uma atitude errônea que não trouxe qualquer reflexo negativo ao certame e à Administração?
Em um caso como o citado acima, observa-se que há evidente aplicação equivocada da norma que visa apenas coibir práticas que venham a ser prejudiciais ao certame ou que empresas apresentem propostas dolosamente inexequíveis, com a qual se concorda. Contudo, é necessária extrema cautela ao analisar o caso concreto, pois há situações em que não teria sentido algum apresentar deliberadamente uma proposta sabidamente inexequível.
O que diz o TCU sobre essa penalidade?
Alguns órgãos de controle, como, por exemplo, o Tribunal de Contas da União , divergem do entendimento ora exposto, entendendo que a penalização independe de ter havido dolo ou má-fé na conduta do licitante ou prejuízo para Administração pública, havendo discricionariedade somente na sua dosimetria. Observe-se que é indispensável que o particular apresente indícios e provas realmente capazes de comprovar suas alegações e que permitam concluir que a proposta apresentada foi manifestadamente fundada em erro e assim, caso mantido o entendimento de aplicação da penalidade, poderá levar o caso para apreciação do Poder Judiciário, que tem entendido de forma análoga ao julgado acima exposto do STF, ressalvada as peculiaridades de cada caso.
Por este motivo, é essencial que a empresa licitante possua consultoria jurídica experiente, pois em um caso de erro de digitação de um lance ou da proposta inicial, a forma, agilidade e os argumentos a serem utilizados para requerer a recusa/desclassificação da proposta, podem ser determinantes para comprovação de boa-fé e ausência de prejuízo, que podem evitar a aplicação das penalidades cabíveis no caso.
Tem alguma dúvida, sugestão, elogio ou reclamação? Deseja se tornar um Pró Licitante? Entre em contato conosco!
Pró Licitante
Especialista em licitação
Conteúdo produzido pela equipe da Pró Licitante, consultoria especializada em licitações e contratos públicos.

